2 de fevereiro de 2011

O Flagra

- Sim, senhor! Muito bonito isso que o senhor está fazendo.

E foi com este puxão de orelhas que a mãe de Lico percebeu que não tinha mais apenas uma criança em casa.

Pegou-o no flagra, o terror de toda mãe. Também, pudera: entrou sem bater no quarto de um rapaz de quinze anos. Achou que o encontraria apenas brincando de jogar botão, coitada.

- O senhor vai ter que me explicar agora mesmo o que significa tudo isso -, ela resmungou, tentando esconder o embaraço. - Me fale tudo ou vou ter que chamar o seu pai.

Ah, o pai. Mães adoram essa ameaça. Azar das mães solteiras, que não tem a figura masculina para apelar nessas horas. Parece que para tudo elas têm jeito, menos para discutir um belo de um flagra.

Lico nem piscou. Estava cabisbaixo, menos por vergonha do que por cansaço. Estava na verdade com pena da mãe, por ter presenciado aquela cena. Ele olhava em volta como que procurando uma fresta de janela aberta por onde pudesse escapar e poupar a coitada de uma explicação. Ela começava a perder o controle:

- Será que vou ter que contar até três? Engoliu a língua, é?

Era como se falasse para as paredes. O garoto agora havia botado o boné, atitude típica de quando se preparava para sair de casa. Dessa vez, entretanto, não se mexeu.

- Vai sair e me deixar falando sozinha, é? - indagou a mãe, um pouco perplexa. - Escuta aqui, menino. Estou falando com você. Quero uma explicação ou já falei que vou chamar o seu pai.

Ele fechou os olhos para pensar. Como explicar aquilo? Como explicar para uma mãe assustada que o filho dela já não é mais um menininho? Sua imaginação foi longe. Pensou em apelar para o sentimentalismo, abraçá-la e dizer que a amava; desta forma escaparia de ter de se explicar. Pensou também em sair correndo e passar deslizando por baixo das pernas da mãe, como fazia na infância. Agora, porém, era grande e certamente a derrubaria na derrapagem.

Sem falar que depois de entrar para a igreja ela passou a usar saias compridas.

Lico então decidiu ficar calado. Esperaria a ameaça de chamar o pai se concretizar, afinal com o velho o papo era mais tranquilo e ele certamente entenderia suas explicações. O garoto tirou o bone, os tênis e se sentou na cama, sem olhar para a mãe.

- Que foi, menino? Não consegue falar? Não pense que eu não sei o que era aquilo que você estava fazendo - disse ela, respirando fundo. - Olha só. Dá até para sentir o cheiro! Moleque nojento.

Ele riu por dentro. Aquela situação era tão vexatória que chegava a ser cômica. Ser pego pela mãe justamente àquela hora era a última coisa que imaginava lhe acontecer. Logo ele, que sempre tomava o cuidado de trancar a porta do quarto antes de começar. Se bem que quando a vontade chegava de repente ele mal tinha tempo de fechar as cortinas.

A mãe então passou do estado de êxtase que se encontrava para uma raiva incontrolável. Começou a jogar todas as tranqueiras de Lico no chão e rosnar como um cão raivoso. Xingava a si própria de um jeito que lembrou ao rapaz aquela mãe dos tempos de criança, que bebia e jogava carteado todas as quintas-feiras. Nada lembrava a carola em que havia se transformado.

- Seu corno, desgraçado! Filho duma égua! Como é que você tem coragem de fazer isso aqui, debaixo do meu teto, seu excomungado? - Essa era uma palavra que havia aprendido recentemente e o seu xingamento mais recorrente. - Vou lá e contar tudo para o seu pai, lazarento de uma figa.

E saiu batendo a porta atrás de si. Lico ainda ouviu a mãe chutar alguma coisa enquanto andava enfurecida pelo corredor. A julgar pelo barulho ela devia ter chutado o cesto de roupa suja, acertando o gato depois do ricocheteio no drywall do quarto da irmã.

Isso o fez sentir mais aliviado. Conversar com o pai seria mais tranquilo, embora ainda houvesse o perigo de o velho pregar um moralismo que não tinha só para agradar a esposa. Mas uma conversa de homem para homem sobre esse assunto era mais fácil do que um filho-mãe. Recolocou seu tênis e sentou no computador.

Quando o pai chegou e bateu à porta Lico pensou "estou safo". Ele não ter entrado chutando tudo era um bom sinal. Queria dizer ao menos que a mãe não estava por perto, botando pressão. Se ela estivesse com certeza o pai tentaria mostrar serviço. Mandou-o entrar.

- Pai, não é nada disso que você está pensando - Lico foi logo se esquivando.

- Nada do que eu estou pensando, seu pequeno bastardo? Você quer acabar com o meu casamento e com esta família? - disse o pai praticamente cuspindo fogo. Seu olho brilhava de euforia, como quem está louco para brigar. Ele então continuou:

 - Você parece que é burro! Quantas vezes vmaos ter que conversar sobre esse papo da sua mãe na igreja? Esse tipo de coisa não pode ser feito aqui em casa de jeito nenhum. De jeito nenhum! E se quiser fazer, não seja estúpido: faça que nem eu e não deixe o menor rastro.

Depois desse dia Lico teve de prometer ao pai nunca mais ler nenhum livro escrito por Friedrich Niezsche dentro de casa, afinal aquele era um lar sagrado e nada que houvesse um dia sido proibido pela Igreja poderia entrar ali.

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