- Sim, senhor! Muito bonito isso que o senhor está fazendo.
E foi com este puxão de orelhas que a mãe de Lico percebeu que não tinha mais apenas uma criança em casa.
Pegou-o no flagra, o terror de toda mãe. Também, pudera: entrou sem bater no quarto de um rapaz de quinze anos. Achou que o encontraria apenas brincando de jogar botão, coitada.
- O senhor vai ter que me explicar agora mesmo o que significa tudo isso -, ela resmungou, tentando esconder o embaraço. - Me fale tudo ou vou ter que chamar o seu pai.
Ah, o pai. Mães adoram essa ameaça. Azar das mães solteiras, que não tem a figura masculina para apelar nessas horas. Parece que para tudo elas têm jeito, menos para discutir um belo de um flagra.
Lico nem piscou. Estava cabisbaixo, menos por vergonha do que por cansaço. Estava na verdade com pena da mãe, por ter presenciado aquela cena. Ele olhava em volta como que procurando uma fresta de janela aberta por onde pudesse escapar e poupar a coitada de uma explicação. Ela começava a perder o controle:
- Será que vou ter que contar até três? Engoliu a língua, é?
Era como se falasse para as paredes. O garoto agora havia botado o boné, atitude típica de quando se preparava para sair de casa. Dessa vez, entretanto, não se mexeu.
- Vai sair e me deixar falando sozinha, é? - indagou a mãe, um pouco perplexa. - Escuta aqui, menino. Estou falando com você. Quero uma explicação ou já falei que vou chamar o seu pai.
Ele fechou os olhos para pensar. Como explicar aquilo? Como explicar para uma mãe assustada que o filho dela já não é mais um menininho? Sua imaginação foi longe. Pensou em apelar para o sentimentalismo, abraçá-la e dizer que a amava; desta forma escaparia de ter de se explicar. Pensou também em sair correndo e passar deslizando por baixo das pernas da mãe, como fazia na infância. Agora, porém, era grande e certamente a derrubaria na derrapagem.
Sem falar que depois de entrar para a igreja ela passou a usar saias compridas.
Lico então decidiu ficar calado. Esperaria a ameaça de chamar o pai se concretizar, afinal com o velho o papo era mais tranquilo e ele certamente entenderia suas explicações. O garoto tirou o bone, os tênis e se sentou na cama, sem olhar para a mãe.
- Que foi, menino? Não consegue falar? Não pense que eu não sei o que era aquilo que você estava fazendo - disse ela, respirando fundo. - Olha só. Dá até para sentir o cheiro! Moleque nojento.
Ele riu por dentro. Aquela situação era tão vexatória que chegava a ser cômica. Ser pego pela mãe justamente àquela hora era a última coisa que imaginava lhe acontecer. Logo ele, que sempre tomava o cuidado de trancar a porta do quarto antes de começar. Se bem que quando a vontade chegava de repente ele mal tinha tempo de fechar as cortinas.
A mãe então passou do estado de êxtase que se encontrava para uma raiva incontrolável. Começou a jogar todas as tranqueiras de Lico no chão e rosnar como um cão raivoso. Xingava a si própria de um jeito que lembrou ao rapaz aquela mãe dos tempos de criança, que bebia e jogava carteado todas as quintas-feiras. Nada lembrava a carola em que havia se transformado.
- Seu corno, desgraçado! Filho duma égua! Como é que você tem coragem de fazer isso aqui, debaixo do meu teto, seu excomungado? - Essa era uma palavra que havia aprendido recentemente e o seu xingamento mais recorrente. - Vou lá e contar tudo para o seu pai, lazarento de uma figa.
E saiu batendo a porta atrás de si. Lico ainda ouviu a mãe chutar alguma coisa enquanto andava enfurecida pelo corredor. A julgar pelo barulho ela devia ter chutado o cesto de roupa suja, acertando o gato depois do ricocheteio no drywall do quarto da irmã.
Isso o fez sentir mais aliviado. Conversar com o pai seria mais tranquilo, embora ainda houvesse o perigo de o velho pregar um moralismo que não tinha só para agradar a esposa. Mas uma conversa de homem para homem sobre esse assunto era mais fácil do que um filho-mãe. Recolocou seu tênis e sentou no computador.
Quando o pai chegou e bateu à porta Lico pensou "estou safo". Ele não ter entrado chutando tudo era um bom sinal. Queria dizer ao menos que a mãe não estava por perto, botando pressão. Se ela estivesse com certeza o pai tentaria mostrar serviço. Mandou-o entrar.
- Pai, não é nada disso que você está pensando - Lico foi logo se esquivando.
- Nada do que eu estou pensando, seu pequeno bastardo? Você quer acabar com o meu casamento e com esta família? - disse o pai praticamente cuspindo fogo. Seu olho brilhava de euforia, como quem está louco para brigar. Ele então continuou:
- Você parece que é burro! Quantas vezes vmaos ter que conversar sobre esse papo da sua mãe na igreja? Esse tipo de coisa não pode ser feito aqui em casa de jeito nenhum. De jeito nenhum! E se quiser fazer, não seja estúpido: faça que nem eu e não deixe o menor rastro.
Depois desse dia Lico teve de prometer ao pai nunca mais ler nenhum livro escrito por Friedrich Niezsche dentro de casa, afinal aquele era um lar sagrado e nada que houvesse um dia sido proibido pela Igreja poderia entrar ali.
Copo de Sabedoria
Porque é do fundo do copo que se extrai grandes doses de sapiência
2 de fevereiro de 2011
20 de janeiro de 2011
Resolução revogada
Acabo de chegar de uma oficina mecânica, o que me fez repensar uma das minhas resoluções de ano-novo. Não, ela não tem nada a ver com fazer revisões periódicas ou lembrar-se de calibrar o pneus uma vez por semana. A questão é sobre leitura.
Prometi que esse ano leria apenas um livro de cada vez. Fiz essa promessa ainda no meio de dezembro, quando me comprometi a terminar os quatro catataus que lia ao mesmo tempo e dali em diante iniciaria apenas um por vez.
Estava indo tudo muito bem -- como toda e qualquer resolução de ano-novo razoável deve estar em meados de janeiro, convenhamos. Eu terminei os quatro livros e estava seguindo fielmente a idéia de ler um de cada vez. Foi então que veio a minha ida à oficina e a resolução foi por água abaixo. Explico.
Tenho o costume de carregar um livro para onde quer que vá sozinho. É um meio de nunca ter de ficar esperando alguma coisa olhando para o teto. Disse um sábio certa vez que quem tem um livro nunca está sozinho, o que, apesar de bem bonito, não é o verdadeiro motivo para eu fazer isso. Só não gosto de conversar com estranhos enquanto espero. Sabe-se lá por que ter um livro em mãos ajuda a mantê-los afastados.
O fato é que antes que eu carregava "um" livro para onde quer que fosse. Escolhia-o de acordo com a ocasião. Hoje, como só leio um por vez, é este e somente este que tenho que carregar. Não posso, por exemplo, escolher o "Clube da Luta" para ir fazer minha inscrição na academia ou "18 Maneiras de Curar sua Ressaca" para encarar a fila do posto de saúde. Tenho que levar o que está na vez. E o do momento se chama "Diários de uma paixão".
Já imaginou eu numa oficina mecânica, rodeado de senhores vestindo terno e homens sujos de graxa dos pés à cabeça, com um livro desse na mão? E o pior: "Diários de uma paixão" está escrito em letras garrafais. Colossais, eu diria. Não tem como se esconder, não tem nem como disfarçar.
Hoje é um dia histórico, um dia que marca a quebra de um recorde. Nunca nesses 23 anos de vida uma resolução de ano-novo caiu por terra tão cedo. Nem quando prometi fazer um regime dos brabos eu desisti a essa altura do ano. Fazia questão de aguentar pelo menos até o carnaval.
Prometi que esse ano leria apenas um livro de cada vez. Fiz essa promessa ainda no meio de dezembro, quando me comprometi a terminar os quatro catataus que lia ao mesmo tempo e dali em diante iniciaria apenas um por vez.
Estava indo tudo muito bem -- como toda e qualquer resolução de ano-novo razoável deve estar em meados de janeiro, convenhamos. Eu terminei os quatro livros e estava seguindo fielmente a idéia de ler um de cada vez. Foi então que veio a minha ida à oficina e a resolução foi por água abaixo. Explico.
Tenho o costume de carregar um livro para onde quer que vá sozinho. É um meio de nunca ter de ficar esperando alguma coisa olhando para o teto. Disse um sábio certa vez que quem tem um livro nunca está sozinho, o que, apesar de bem bonito, não é o verdadeiro motivo para eu fazer isso. Só não gosto de conversar com estranhos enquanto espero. Sabe-se lá por que ter um livro em mãos ajuda a mantê-los afastados.
O fato é que antes que eu carregava "um" livro para onde quer que fosse. Escolhia-o de acordo com a ocasião. Hoje, como só leio um por vez, é este e somente este que tenho que carregar. Não posso, por exemplo, escolher o "Clube da Luta" para ir fazer minha inscrição na academia ou "18 Maneiras de Curar sua Ressaca" para encarar a fila do posto de saúde. Tenho que levar o que está na vez. E o do momento se chama "Diários de uma paixão".
Já imaginou eu numa oficina mecânica, rodeado de senhores vestindo terno e homens sujos de graxa dos pés à cabeça, com um livro desse na mão? E o pior: "Diários de uma paixão" está escrito em letras garrafais. Colossais, eu diria. Não tem como se esconder, não tem nem como disfarçar.
Hoje é um dia histórico, um dia que marca a quebra de um recorde. Nunca nesses 23 anos de vida uma resolução de ano-novo caiu por terra tão cedo. Nem quando prometi fazer um regime dos brabos eu desisti a essa altura do ano. Fazia questão de aguentar pelo menos até o carnaval.
18 de janeiro de 2011
Uma noite Neymar dormida
Ia começar a escrever este texto ainda de madrugada, logo após o jogo Brasil x Paraguai pelo Sulamericano Sub-20. Como não quis ser execrado pela opinião pública, resolvi esperar para ter certeza de que meu argumento era sustentável. Eu tinha certeza de que os programas de TV de hoje iriam apenas tecer loas ao time brasileiro e exaltar o "show do menino Neymar". Nem precisei esperar o Globo Esporte começar: em todos os sites de esporte que eu costumo entrar o rosto do moleque santista está lá, acompanhado por adjetivos que vão de "gênio" à "fenômeno".
Ele foi estupendo no jogo, é verdade. Não é sempre que um jogador faz quatro gols numa só partida. Por mais irritantes que aquela golinha levantada, o cabelo besuntado em gel ou o meião sobre o joelho sejam, esse é um fato que não se pode negar. Assim como não se pode negar que Neymar é craque. Isso é indiscutível, por tudo o que ele já fez entre os profissionais. O problema dele é extra-campo. Neymar é um jogando, outro falando/agindo. Mas o texto não é sobre ele; é sobre a seleção brasileira sub-20.
O resultado de uma partida algumas vezes mascara o que de fato aconteceu. Quem vê no jornal que o Brasil meteu 4 a 2 no Paraguai pensa "nossa, que maravilha". Mas não tem nada disso. Quem assistiu ao jogo naquele horário desumano, sabe: a mini-seleção mostrou mais defeitos do que qualidades nos 90 minutos. É importante que quem está lá comandando veja esses defeitos para que não perdamos da Argentina na final.
Ei-los: 1) Os chutões. Não tinha ligação da zaga com o meio e do meio com o ataque. O jogo todo foi na base dos chutões dos zagueiros para que alguém conseguisse dominar a bola lá na frente. Ninguém tinha calma para pôr a bola no chão e sair jogando pelos lados. Minto: quando o Galhardo entrou, no segundo tempo, começou a fazer isso. Tanto que foi dele o passe de 40 metros para o golaço do Neymar.
2) Insegurança da defesa. A começar pelo goleiro, que espalmou 100% das bolas, nenhum dos defensores brasileiros, como já foi dito, conseguia manter a calma com a bola nos pés. Não se espera deles dribles, mas que pelo menos ponham a bola no chão e passem de lado. Que dêem um toque para fora, quando sem opção -- mas que pelo menos busquem essa opção antes de meter a bicuda para onde o nariz aponta.
3) O excesso de violência, e aqui um tópico que vale para ambos os times. Quem eles pensam que são? Trogloditas do futebol americano? Tudo bem querer mostrar serviço, mas não seria melhor fazer jogadas bonitas a dar botinadas? Os dois times pareciam disputar a quadra numa dessas partidas de subúrbio. Era ceifada atrás de ceifada, sobretudo do time paraguaio. Eu os vi como crianças querendo ver quem é mais forte, quem dá o melhor soco. Infantilidade que culminou na expulsão do Zé Eduardo (que no primeiro tempo, sabe-se lá como, passou incólume) e do inoperante Henrique. Sem falar no técnico Ney Franco, que deu o pior exemplo possível logo no primeiro jogo.
Enfim, o jogo foi bom pelo resultado e pela pequena mostra de amadurecimento do Neymar. No pênalti, por mais que tenha errado a cobrança (no meu modo de ver), ele mostrou ter aprendido que nas horas importantes é melhor fazer o simples e garantir o resultado do que inventar e correr o risco de errar. Além disso ele de fato chamou a responsabilidade. Correu, lutou, roubou bolas no meio de campo. Não ficou parado como a estrela, apenas esperando a bola chegar. Se continuar assim vai ser como disse meu amigo Renan Colombo: "se o Neymar seguir jogando tudo isso, algum time europeu vai fretar um navio, encher de dinheiro e ancorar no Porto de Santos".
E tenho dito.
Ele foi estupendo no jogo, é verdade. Não é sempre que um jogador faz quatro gols numa só partida. Por mais irritantes que aquela golinha levantada, o cabelo besuntado em gel ou o meião sobre o joelho sejam, esse é um fato que não se pode negar. Assim como não se pode negar que Neymar é craque. Isso é indiscutível, por tudo o que ele já fez entre os profissionais. O problema dele é extra-campo. Neymar é um jogando, outro falando/agindo. Mas o texto não é sobre ele; é sobre a seleção brasileira sub-20.
O resultado de uma partida algumas vezes mascara o que de fato aconteceu. Quem vê no jornal que o Brasil meteu 4 a 2 no Paraguai pensa "nossa, que maravilha". Mas não tem nada disso. Quem assistiu ao jogo naquele horário desumano, sabe: a mini-seleção mostrou mais defeitos do que qualidades nos 90 minutos. É importante que quem está lá comandando veja esses defeitos para que não perdamos da Argentina na final.
Ei-los: 1) Os chutões. Não tinha ligação da zaga com o meio e do meio com o ataque. O jogo todo foi na base dos chutões dos zagueiros para que alguém conseguisse dominar a bola lá na frente. Ninguém tinha calma para pôr a bola no chão e sair jogando pelos lados. Minto: quando o Galhardo entrou, no segundo tempo, começou a fazer isso. Tanto que foi dele o passe de 40 metros para o golaço do Neymar.
2) Insegurança da defesa. A começar pelo goleiro, que espalmou 100% das bolas, nenhum dos defensores brasileiros, como já foi dito, conseguia manter a calma com a bola nos pés. Não se espera deles dribles, mas que pelo menos ponham a bola no chão e passem de lado. Que dêem um toque para fora, quando sem opção -- mas que pelo menos busquem essa opção antes de meter a bicuda para onde o nariz aponta.
3) O excesso de violência, e aqui um tópico que vale para ambos os times. Quem eles pensam que são? Trogloditas do futebol americano? Tudo bem querer mostrar serviço, mas não seria melhor fazer jogadas bonitas a dar botinadas? Os dois times pareciam disputar a quadra numa dessas partidas de subúrbio. Era ceifada atrás de ceifada, sobretudo do time paraguaio. Eu os vi como crianças querendo ver quem é mais forte, quem dá o melhor soco. Infantilidade que culminou na expulsão do Zé Eduardo (que no primeiro tempo, sabe-se lá como, passou incólume) e do inoperante Henrique. Sem falar no técnico Ney Franco, que deu o pior exemplo possível logo no primeiro jogo.
Enfim, o jogo foi bom pelo resultado e pela pequena mostra de amadurecimento do Neymar. No pênalti, por mais que tenha errado a cobrança (no meu modo de ver), ele mostrou ter aprendido que nas horas importantes é melhor fazer o simples e garantir o resultado do que inventar e correr o risco de errar. Além disso ele de fato chamou a responsabilidade. Correu, lutou, roubou bolas no meio de campo. Não ficou parado como a estrela, apenas esperando a bola chegar. Se continuar assim vai ser como disse meu amigo Renan Colombo: "se o Neymar seguir jogando tudo isso, algum time europeu vai fretar um navio, encher de dinheiro e ancorar no Porto de Santos".
E tenho dito.
13 de janeiro de 2011
O Pijama Lilás, parte 1
Começou quando foi convidado a se retirar de uma sala de cinema. Estava infringindo as regras, disseram. Seria porque resolvera colocar o sapato sobre o banco da frente? Nada era mais comum nas cada vez menos confortáveis salas de cinema de hoje. O lanterninha falou "o senhor queira me acompanhar, por obséquio". Ele foi, apesar de achar o linguajar do lanterninha um pouco ousado demais para a situação.
Andaram minutos a fio pelos corredors do shopping. Quando chegaram de frente para uma porta escrito "Administração" o lanteninha havia simplesmente desaparecido. O rapaz pensou em fugir, porém um assomo de curiosidade fê-lo ficar e bater na porta. Demorou até que alguém respondesse. Uma voz feminina convidou-o a entrar. Ele coçou a cabeça, perguntando-se por que raios resolvera não fugir, e abriu. Nesse exato instante tudo se apagou.
Acordou estava no que imaginou ser o ambulatório do shopping. Não sabia que lá havia um ambulatório, mas perguntando foi a única explicação que lhe deram. Tudo era branco e com grandes luzes amarelas, como nos filmes. Estava sendo levado de maca por vários corredores e portas. "Que puta ambulatório para um shopping center", pensou. Ao entrar num dos quartos o enfermeiro perguntou como ele estava se sentindo. Então tudo se apagou novamente.
Desta vez acordou em casa, deitado confortavelmente em sua própria cama e vestindo um pijama lilás que nunca vira na vida. Não fosse pela vestimenta teria certeza de que tudo aquilo havia sido um sonho. Levantou-se e saiu atrás da carteira. Talvez tivesse sido assaltado -- um grande assalto com produções, digamos, cinematográficas. Achou pouco provável, mas o mundo é insano o bastante para que acontecessem coisas como aquela.
Achou a carteira no lugar que sempre costumava deixar. Do jeito que costumava deixar. Era um homem de métodos, pois sabia que, assim, era só observar uma falha no padrão para perceber que algo de estranho havia acontecido. Só que tudo na carteira estava intacto. Documentos, fotos, pen-drive, cartões-fidelidade. Tudo. Tivera por um instante até a impressão de que os seis reais pagos pelo cinema haviam sido colocados de volta no lugar. Ele então se tremeu todo e saiu do quarto, rumando em direção à sala de estar.
Lá estavam os pais e a irmã mais velha. Não teve tempo nem de se acostumar a iluminação quando ouviu gargalhadas. "O pijama", pensou ele, com efeito. A irmã literalmente rolava no chão, sem ar, numa risada até certo ponto esculachada. O pai também não conseguiu se controlar e apontava para o filho ao mesmo tempo que enxugava as lágrimas do rosto. A mãe com certo esforço fez o seu papel de mãe e manteve o mais firme que pode andando em direção ao filho.
"Está tudo bem, querido?", perguntou ela, apalpando o tecido do pijama e contorcendo o rosto que queria rir. "Andou fazendo compras?" Aquilo foi a gota d'água para a irmã e o pai, que já se encontravam abraçados no chão da sala, rolando de tanto rir. Fora uma pergunta inocente de uma mãe amorosa que soou como um deboche digno de comédia britânica aos ouvidos dos sois. O rapaz então olhou bem fundo nos olhos dela e virou-lhe as costas, indo de volta para o quarto. Ainda teve tempo de ouvir a mãe ceder e cair também na gargalhada.
"Estúpidos, idiotas, desgraçados!", xingava entre os lábios semicerrados. Trancou-se no quarto não sem antes bater a porta com toda a força que podia. Olhou-se no espelho e viu: estava mesmo ridículo. Não era para tanto, apesar de ele ter deixado escapar um sorriso de canto de boca. Não precisavam rolar no chão, debulhando-se em lágrimas, só por causa daquilo. Aliás, pensava, como fora um negócio daquele parar em seu corpo?
Sentou-se à cama e tentou rever os acontecimentos da noite anterior. Supôs, aliás, que tivesse sido a noite anterior, pois não tinha nenhuma certeza de que dia se encontrava. Só ficou tranquilo porque a família estava toda em casa, então provavelmente ainda era domingo. Fosse aquele dia uma segunda-feira o atraso certamente custaria-lhe o emprego.
Então fechou os olhos. Nada. A última coisa que se lembrava era de estar parado em frente a porta da administração do shopping. Lembrou-se vagamente de ter batido e da breve conversa no suposto ambulatório do shopping. Nada mais. Nenhum acontecimento lhe ocorreu entre esses eventos. "Será que fui abduzido?", perguntou-se, antes de torcer o nariz. "Será que fui estuprado? Ou pior: será que arrancaram o meu rim?"
Nessa hora só o que pensou foi em tirar a camisa e se olhar no espelho. Procurava qualquer marca que pudesse lhe dar pistas do havia acontecido. Não encontrou nada visível. Não sentia dores nem coceiras. Olhou por inchaços nas costas, nas pernas e até nas partes íntimas. Estava liso como um bom sedentário de prédio. Isso ao invés de tranquilizá-lo apenas confundiu ainda mais a sua cabeça.
Foi tomar um banho. Tinha decidido se arrumar e tentar uma conversa decente com a família, a fim de investigar ao menos como havia chegado em casa. Durante a ducha, porém, sentiu algo na parte de trás da cabeça. Uma bolinha, insignificante num dia normal, preocupante numa manhã como aquela. Começou a apalpá-la já temendo o pior. "Colocaram um chip em mim. Estou sendo controlado pelo governo, pela CIA". Sua mente foi longe. Sentou-se no chão, de cócoras, chorando como um bebê.
Até que, mais uma vez, adormeceu.
Andaram minutos a fio pelos corredors do shopping. Quando chegaram de frente para uma porta escrito "Administração" o lanteninha havia simplesmente desaparecido. O rapaz pensou em fugir, porém um assomo de curiosidade fê-lo ficar e bater na porta. Demorou até que alguém respondesse. Uma voz feminina convidou-o a entrar. Ele coçou a cabeça, perguntando-se por que raios resolvera não fugir, e abriu. Nesse exato instante tudo se apagou.
Acordou estava no que imaginou ser o ambulatório do shopping. Não sabia que lá havia um ambulatório, mas perguntando foi a única explicação que lhe deram. Tudo era branco e com grandes luzes amarelas, como nos filmes. Estava sendo levado de maca por vários corredores e portas. "Que puta ambulatório para um shopping center", pensou. Ao entrar num dos quartos o enfermeiro perguntou como ele estava se sentindo. Então tudo se apagou novamente.
Desta vez acordou em casa, deitado confortavelmente em sua própria cama e vestindo um pijama lilás que nunca vira na vida. Não fosse pela vestimenta teria certeza de que tudo aquilo havia sido um sonho. Levantou-se e saiu atrás da carteira. Talvez tivesse sido assaltado -- um grande assalto com produções, digamos, cinematográficas. Achou pouco provável, mas o mundo é insano o bastante para que acontecessem coisas como aquela.
Achou a carteira no lugar que sempre costumava deixar. Do jeito que costumava deixar. Era um homem de métodos, pois sabia que, assim, era só observar uma falha no padrão para perceber que algo de estranho havia acontecido. Só que tudo na carteira estava intacto. Documentos, fotos, pen-drive, cartões-fidelidade. Tudo. Tivera por um instante até a impressão de que os seis reais pagos pelo cinema haviam sido colocados de volta no lugar. Ele então se tremeu todo e saiu do quarto, rumando em direção à sala de estar.
Lá estavam os pais e a irmã mais velha. Não teve tempo nem de se acostumar a iluminação quando ouviu gargalhadas. "O pijama", pensou ele, com efeito. A irmã literalmente rolava no chão, sem ar, numa risada até certo ponto esculachada. O pai também não conseguiu se controlar e apontava para o filho ao mesmo tempo que enxugava as lágrimas do rosto. A mãe com certo esforço fez o seu papel de mãe e manteve o mais firme que pode andando em direção ao filho.
"Está tudo bem, querido?", perguntou ela, apalpando o tecido do pijama e contorcendo o rosto que queria rir. "Andou fazendo compras?" Aquilo foi a gota d'água para a irmã e o pai, que já se encontravam abraçados no chão da sala, rolando de tanto rir. Fora uma pergunta inocente de uma mãe amorosa que soou como um deboche digno de comédia britânica aos ouvidos dos sois. O rapaz então olhou bem fundo nos olhos dela e virou-lhe as costas, indo de volta para o quarto. Ainda teve tempo de ouvir a mãe ceder e cair também na gargalhada.
"Estúpidos, idiotas, desgraçados!", xingava entre os lábios semicerrados. Trancou-se no quarto não sem antes bater a porta com toda a força que podia. Olhou-se no espelho e viu: estava mesmo ridículo. Não era para tanto, apesar de ele ter deixado escapar um sorriso de canto de boca. Não precisavam rolar no chão, debulhando-se em lágrimas, só por causa daquilo. Aliás, pensava, como fora um negócio daquele parar em seu corpo?
Sentou-se à cama e tentou rever os acontecimentos da noite anterior. Supôs, aliás, que tivesse sido a noite anterior, pois não tinha nenhuma certeza de que dia se encontrava. Só ficou tranquilo porque a família estava toda em casa, então provavelmente ainda era domingo. Fosse aquele dia uma segunda-feira o atraso certamente custaria-lhe o emprego.
Então fechou os olhos. Nada. A última coisa que se lembrava era de estar parado em frente a porta da administração do shopping. Lembrou-se vagamente de ter batido e da breve conversa no suposto ambulatório do shopping. Nada mais. Nenhum acontecimento lhe ocorreu entre esses eventos. "Será que fui abduzido?", perguntou-se, antes de torcer o nariz. "Será que fui estuprado? Ou pior: será que arrancaram o meu rim?"
Nessa hora só o que pensou foi em tirar a camisa e se olhar no espelho. Procurava qualquer marca que pudesse lhe dar pistas do havia acontecido. Não encontrou nada visível. Não sentia dores nem coceiras. Olhou por inchaços nas costas, nas pernas e até nas partes íntimas. Estava liso como um bom sedentário de prédio. Isso ao invés de tranquilizá-lo apenas confundiu ainda mais a sua cabeça.
Foi tomar um banho. Tinha decidido se arrumar e tentar uma conversa decente com a família, a fim de investigar ao menos como havia chegado em casa. Durante a ducha, porém, sentiu algo na parte de trás da cabeça. Uma bolinha, insignificante num dia normal, preocupante numa manhã como aquela. Começou a apalpá-la já temendo o pior. "Colocaram um chip em mim. Estou sendo controlado pelo governo, pela CIA". Sua mente foi longe. Sentou-se no chão, de cócoras, chorando como um bebê.
Até que, mais uma vez, adormeceu.
11 de janeiro de 2011
Ronaldo de Assis Moreira
Um flamenguista que se preze não poderia se abster de comentar a novela Ronaldinho, o folhetim de maior audiência da televisão brasileira em 2011. Entretanto, flameguista vacinado que sou, preferi esperar até o papel cheio de incisos e notas de rodapé chamado contrato estar devidamente assinado para vir a público e expressar a minha opinião. É melhor pecar pela demora do que passar pela humilhação de mandar que recolham as caixas de som da festa precipitada.
Sem rodeios, direto ao ponto: Ronaldinho Gaúcho foi uma baita de uma contratação feita pelo Flamengo. A maior desde Romário em 95 sem a menor sombra de dúvida. Adriano foi bom? Foi, mas era uma aposta muito mais arriscada do que um jogador que já foi melhor do mundo em duas oportunidades. Só que isso foi dito assim, na lata, sem muitas das obrigatórias consideração terem sido devidamente feitas. Elas postas em jogo, meus caros, o buraco é mais embaixo.
Ronaldinho é craque. Indiscutivelmente craque. O que ele fez no Barcelona entre 2003 e 2006 vai ficar para a história. Mas o tempo passa, e não há corpo humano que aguente tanto boteco sem cobrar seu preço em fôlego e rigidez muscular. Quem assistiu aos últimos jogos do dentuço no Milan ano passado pode perceber que 90 minutos de atividade física é minuto demais para quem carrega quantidades absurdas de álcool no sangue. Ele tinha um ou outro espasmo de genialidade, porque craque é craque, mas só. Ficava nisso. Como, então, vai ser no Brasil? Pior: como vai ser no Rio de Janeiro, a casa do samba e da cerveja gelada?
Não dá para esperar que Ronaldinho Gaúcho resolva tudo sozinho no Flamengo. Se fosse na temporada 04/05 era de se supor que só a presença dele ia ajeitar a defesa, organizar o meio de campo e turbinar o ataque do time. Hoje teremos de comemorar os jogos em que ele não peça para sair por conta do calor. Que eu queime minha língua, que eu sinceramente queime a minha língua, mas acho que o Ronaldinho chega mais para completar o time (ainda que como craque máximo da equipe) do que para levar sozinho o Mais Querido para uma final de Libertadores.
E aí que chegamos na parte principal. Se Ronaldinho não vai ser o puxador do sambaenredo rubro-negro neste ano, por que dizer com tanta veemência que ele foi uma baita de uma contratação? Bom, primeiro de tudo é que o Flamengo ainda não fechou o patrocínio master para 2011. Nisso o Assis Moreira mais novo vai fazer toda a diferença. O contrato de 22mi com a Batavo vence no final de janeiro e -- podem apostar -- 35 milhões de reais vai ser pouco para quem quiser mostrar seu logotipo no peito do Manto Sagrado. Isso sem falar nas campanhas de marketing e patrocínios à la Avanço-na-camisa-do-Corinthias que virão.
Depois, e não menos importante, é que com Ronaldinho no time vai ser muito mais fácil contratar. Que homem no mundo não gostaria de ter o prazer de atuar ao lado de um dos maiores jogadores de futebol de todos os tempos? Digam o que quiserem, sobretudo gremistas e palmeirenses, mas Ronaldinho Gaúcho já está no panteão reservado aos unânimes do ludopédio. Infelizmente no Brasil esse reconhecimento só vem depois da aposentadoria, pois não se admite sob circunstância alguma que um jogador de outro time é craque e ídolo nacional, mas essa é a verdade.
Enfim, Ronaldinho Gaúcho será o chamariz rubro-negro. De dinheiro, de outros jogadores e principalmente da TV Globo, que anda carente de sacos para puxar desde que o Ronalducho desistiu de jogar bola. Nada mais oportuno para um ano de rendeção flamenga, portanto, do que essa contratação novelística. Só resta saber como o departamento de finanças do clube irá fazer dinheiro com isso, pois até o mais bobo dos torcedores sabe que todo o dinheiro que entrar a mais no patrocínio master a ser fechado será dividido entre a facilitadora Traffic e a família Assis.
Para mim, torcedor, não importa: Ronaldinho fechou com o certo e agora é rei. Ele e o Thiago Neves. Ninguém segura o Mengão 2011!
Sem rodeios, direto ao ponto: Ronaldinho Gaúcho foi uma baita de uma contratação feita pelo Flamengo. A maior desde Romário em 95 sem a menor sombra de dúvida. Adriano foi bom? Foi, mas era uma aposta muito mais arriscada do que um jogador que já foi melhor do mundo em duas oportunidades. Só que isso foi dito assim, na lata, sem muitas das obrigatórias consideração terem sido devidamente feitas. Elas postas em jogo, meus caros, o buraco é mais embaixo.
Ronaldinho é craque. Indiscutivelmente craque. O que ele fez no Barcelona entre 2003 e 2006 vai ficar para a história. Mas o tempo passa, e não há corpo humano que aguente tanto boteco sem cobrar seu preço em fôlego e rigidez muscular. Quem assistiu aos últimos jogos do dentuço no Milan ano passado pode perceber que 90 minutos de atividade física é minuto demais para quem carrega quantidades absurdas de álcool no sangue. Ele tinha um ou outro espasmo de genialidade, porque craque é craque, mas só. Ficava nisso. Como, então, vai ser no Brasil? Pior: como vai ser no Rio de Janeiro, a casa do samba e da cerveja gelada?
Não dá para esperar que Ronaldinho Gaúcho resolva tudo sozinho no Flamengo. Se fosse na temporada 04/05 era de se supor que só a presença dele ia ajeitar a defesa, organizar o meio de campo e turbinar o ataque do time. Hoje teremos de comemorar os jogos em que ele não peça para sair por conta do calor. Que eu queime minha língua, que eu sinceramente queime a minha língua, mas acho que o Ronaldinho chega mais para completar o time (ainda que como craque máximo da equipe) do que para levar sozinho o Mais Querido para uma final de Libertadores.
E aí que chegamos na parte principal. Se Ronaldinho não vai ser o puxador do sambaenredo rubro-negro neste ano, por que dizer com tanta veemência que ele foi uma baita de uma contratação? Bom, primeiro de tudo é que o Flamengo ainda não fechou o patrocínio master para 2011. Nisso o Assis Moreira mais novo vai fazer toda a diferença. O contrato de 22mi com a Batavo vence no final de janeiro e -- podem apostar -- 35 milhões de reais vai ser pouco para quem quiser mostrar seu logotipo no peito do Manto Sagrado. Isso sem falar nas campanhas de marketing e patrocínios à la Avanço-na-camisa-do-Corinthias que virão.
Depois, e não menos importante, é que com Ronaldinho no time vai ser muito mais fácil contratar. Que homem no mundo não gostaria de ter o prazer de atuar ao lado de um dos maiores jogadores de futebol de todos os tempos? Digam o que quiserem, sobretudo gremistas e palmeirenses, mas Ronaldinho Gaúcho já está no panteão reservado aos unânimes do ludopédio. Infelizmente no Brasil esse reconhecimento só vem depois da aposentadoria, pois não se admite sob circunstância alguma que um jogador de outro time é craque e ídolo nacional, mas essa é a verdade.
Enfim, Ronaldinho Gaúcho será o chamariz rubro-negro. De dinheiro, de outros jogadores e principalmente da TV Globo, que anda carente de sacos para puxar desde que o Ronalducho desistiu de jogar bola. Nada mais oportuno para um ano de rendeção flamenga, portanto, do que essa contratação novelística. Só resta saber como o departamento de finanças do clube irá fazer dinheiro com isso, pois até o mais bobo dos torcedores sabe que todo o dinheiro que entrar a mais no patrocínio master a ser fechado será dividido entre a facilitadora Traffic e a família Assis.
Para mim, torcedor, não importa: Ronaldinho fechou com o certo e agora é rei. Ele e o Thiago Neves. Ninguém segura o Mengão 2011!
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